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Companhia de Reis Missão Sagrada mantém viva a fé e a cultura popular em Campinas
Em entrevista, Marcos Ricardo falou sobre a trajetória do grupo, os encontros de violeiros na Paróquia Santa Isabel e a preparação de um livro dedicado à memória e à espiritualidade da Folia de Reis
Por André Moreira Augusto
Publicado em 06/09/2026 17:13
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A preservação da Folia de Reis como expressão de fé, música e cultura popular foi o tema de uma entrevista concedida por Marcos Ricardo, fundador da Companhia de Reis Missão Sagrada, ao apresentador André Augusto. Durante a conversa, o convidado apresentou a história do grupo, explicou o caráter missionário das jornadas e anunciou a preparação de um livro sobre a tradição.

Marcos Ricardo começou seu envolvimento com a viola caipira e a Folia de Reis em 2009, na região do ABC Paulista. Após mudar-se para Campinas, em 2014, aprofundou seus conhecimentos ao lado do mestre Tião Mineiro, de quem recebeu ensinamentos ligados à música e às tradições transmitidas oralmente entre as gerações.

Campinas possui uma história centenária relacionada à manifestação. Entre seus importantes representantes está a Companhia de Reis Ases do Brasil, fundada em 1908. Segundo Marcos Ricardo, atualmente existem quatro companhias de reis em atividade na região campineira.

A Companhia de Reis Missão Sagrada foi fundada por ele em 2019. Diferentemente de grupos que surgem a partir do pagamento de uma promessa, a iniciativa nasceu do interesse pela cultura e de uma devoção espontânea. O nome, inspirado em uma música, representa o compromisso dos integrantes com a continuidade da fé e da tradição.

Para Marcos Ricardo, preservar a Folia de Reis é assumir uma responsabilidade diante de uma sociedade que dedica cada vez menos tempo à transmissão dos conhecimentos entre mestres e aprendizes.

Paróquia Santa Isabel acolheu a companhia

A aproximação da companhia com a Paróquia Santa Isabel, em Campinas, começou durante uma missa da Epifania. Com o apoio do padre Thiago Luiz e do padre Nilo, o grupo encontrou na comunidade um espaço para desenvolver suas atividades religiosas e culturais.

Como a jornada da Folia de Reis acontece em um período específico do ano, os integrantes decidiram criar encontros de violeiros para manter as atividades nos outros meses. Além da devoção aos Santos Reis, o grupo passou a realizar ciclos de louvação dedicados ao Divino Espírito Santo, a São Gonçalo e a outras celebrações da religiosidade popular.

A iniciativa também permitiu a chegada de novos participantes, entre eles o senhor Toninho, conhecido como Bastião. Atualmente, os encontros são realizados quinzenalmente, aos sábados, das 14h às 16h, na Paróquia Santa Isabel.

As atividades são abertas à comunidade e não exigem formação musical. Os participantes aprendem a viola caipira principalmente pela observação, pelo sentimento e pela prática coletiva. Cantores e percussionistas também podem integrar o grupo.

Não existe restrição de idade. Conforme relatado durante a entrevista, os encontros recebem desde crianças pequenas, como o filho de dois anos de Marcos Ricardo, até pessoas com mais de 80 anos. Estudantes universitários interessados em cultura popular e etnomusicologia também acompanham as atividades.

Jornada leva o Evangelho às famílias

Na Folia de Reis, a jornada consiste em visitar residências e comunidades para cantar a história dos Reis Magos. Em áreas urbanas, essa tradição encontra nas paróquias uma importante base de apoio para continuar alcançando as famílias.

As visitas podem ser previamente agendadas ou ocorrer durante a passagem da companhia por determinado bairro. Pessoas que inicialmente se aproximam por curiosidade ou interesse musical acabam conhecendo também o sentido religioso da manifestação.

Marcos Ricardo definiu a Folia de Reis como uma forma de catequese popular. Por meio dos versos cantados, a companhia anuncia as Sagradas Escrituras e leva uma mensagem de fé às famílias, inclusive àquelas que não conseguem frequentar a igreja por motivos de saúde.

Entre as experiências marcantes, ele recordou uma visita ao senhor Dionísio. Mesmo acamado, o devoto conseguiu levantar-se para rezar diante da bandeira dos Santos Reis. Para os integrantes, episódios como esse demonstram que a missão pode funcionar como um bálsamo espiritual para quem recebe a companhia.

As doações arrecadadas durante as visitas são destinadas a ações de caridade e à realização de almoços comunitários. Dessa maneira, a tradição une evangelização, convivência e solidariedade.

Música, improvisação e espiritualidade

Durante a entrevista, Marcos Ricardo apresentou um trecho da música “Caris Bento” e explicou as diferenças entre uma gravação convencional e uma apresentação realizada durante a jornada.

Enquanto uma música registrada em disco precisa respeitar determinada duração, as apresentações da Folia de Reis podem ser extensas e improvisadas. Os versos são construídos a partir das Escrituras e das circunstâncias encontradas em cada residência.

Segundo o fundador, muitas palavras surgem espontaneamente durante as visitas. Os integrantes interpretam essa inspiração como uma ação do Espírito Santo, que conduz a mensagem de acordo com a realidade de cada família.

A experiência transforma tanto quem recebe a Folia quanto quem participa dela. Entre os testemunhos citados está o de uma família que teve um filho depois de receber a visita da companhia. Para Marcos Ricardo, os principais frutos da missão não podem ser medidos materialmente, pois estão ligados ao fortalecimento da fé e aos vínculos criados com a comunidade.

Jornada terminará com almoço comunitário

A próxima jornada da Companhia de Reis Missão Sagrada terá início no primeiro domingo do Advento. As visitas seguirão durante o período natalino e serão encerradas em 10 de janeiro de 2027.

O encerramento contará com um almoço gratuito para a comunidade no salão paroquial da Igreja Matriz de Santa Isabel, em Barão Geraldo. A celebração reunirá os participantes da jornada, os moradores e as famílias visitadas pela companhia.

Quem desejar receber a Folia de Reis, aprender a cantar ou tocar um instrumento poderá entrar em contato com o grupo pelas redes sociais. As informações são divulgadas pelo perfil da Companhia de Reis Missão Sagrada, que também realiza publicações em conjunto com os Violeiros de Barão Geraldo. Os perfis disponibilizam acesso ao WhatsApp para esclarecimento de dúvidas e agendamento de visitas.

Livro registrará memória da tradição

Além das atividades musicais e missionárias, Marcos Ricardo prepara o livro “Folia de Reis, Missão Sagrada”. A obra encontra-se em fase de edição e pretende ir além de uma biografia convencional da companhia.

O livro abordará o significado espiritual da missão, a relação do autor com a viola e os aprendizados atribuídos aos Santos Reis e ao Divino Espírito Santo. A publicação deverá contribuir para que os conhecimentos atualmente transmitidos pela oralidade também sejam preservados por meio de um registro escrito.

Durante a entrevista, André Augusto destacou a importância desse material para músicos, devotos, antropólogos e estudantes universitários interessados em compreender a estrutura das louvações e a presença da Folia de Reis na cultura brasileira.

Um novo encontro deverá ser realizado por ocasião do lançamento da obra, com a possibilidade de apresentação musical ao vivo. Ao concluir a entrevista, André Augusto agradeceu a participação de Marcos Ricardo e ressaltou a contribuição da Companhia de Reis Missão Sagrada para a preservação de uma tradição que reúne evangelização, memória, música e compromisso comunitário.

 
 
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